
Nos últimos anos, o número de crianças e adolescentes diagnosticados com ansiedade tem aumentado de forma alarmante. Dados recentes mostram que, no Brasil, os casos de ansiedade entre crianças e jovens já superam os dos adultos, evidenciando um problema de saúde mental que não pode mais ser ignorado.
Pesquisas também apontam que cerca de 35% das crianças e adolescentes brasileiros apresentaram sintomas de ansiedade ou depressão, especialmente após a pandemia. Mas o que isso significa na prática? Como diferenciar uma preocupação comum de um transtorno que pode afetar o desenvolvimento do seu filho? A ansiedade infantil não é “frescura” ou “drama passageiro”.
Quando intensa e persistente, pode comprometer o bem-estar emocional, social e escolar da criança. Apesar disso, muitos pais ainda têm dificuldade em identificar os sinais precoces e, principalmente, saber como agir.
Neste artigo, vamos explorar sobre este tema, compreender as causas da ansiedade infantil e discutir estratégias para ajudar seu filho a lidar com suas emoções de forma saudável. Afinal, entender o que se passa na mente das crianças é o primeiro passo para oferecer o suporte necessário e garantir que cresçam seguras e emocionalmente equilibradas.
Ansiedade infantil é um estado emocional caracterizado por medo, preocupação ou nervosismo excessivo em crianças, podendo afetar seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Embora algum nível de ansiedade seja normal e esperado em diferentes fases do crescimento, torna-se um problema quando interfere significativamente na vida diária da criança.
Os transtornos de ansiedade infantil podem se manifestar de diversas formas, como fobias específicas, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade de separação e transtorno do pânico. A ansiedade infantil pode resultar de uma interação entre fatores genéticos, ambientais e neurobiológicos, sendo influenciada pelo temperamento da criança e pelo estilo de criação dos pais. A literatura sugere que a exposição a estressores precoces, padrões parentais ansiosos e déficits na regulação emocional estão associados a um maior risco de desenvolvimento de transtornos de ansiedade na infância.
A ansiedade infantil pode ser observada desde os primeiros anos de vida, mas os transtornos de ansiedade geralmente começam a ser diagnosticados a partir da primeira infância (cerca de 3 anos de idade), quando a criança já apresenta maior desenvolvimento emocional e social.
Segundo Cartwright-Hatton et al. (2006), medos e ansiedades fazem parte do desenvolvimento infantil normal, mas quando essas reações são intensas, persistentes e interferem no funcionamento diário, pode-se considerar um transtorno de ansiedade.
Identificar os sinais de transtorno de ansiedade em crianças é fundamental para que os pais possam buscar ajuda adequada e promover o bem-estar de seus filhos. Os sintomas podem variar conforme a idade, mas alguns sinais comuns incluem:
Sinais Emocionais e Comportamentais:
• Preocupação excessiva com situações cotidianas ou eventos futuros.
• Medos intensos que podem parecer desproporcionais à situação.
• Evitação de situações sociais, demonstrando desconforto ou relutância em participar de atividades com outras crianças.
• Irritabilidade e mudanças de humor sem causa aparente.
• Dificuldade de concentração ou apatia em relação a atividades que antes eram prazerosas.
Sinais Físicos:
• Queixas somáticas, como dores de cabeça, dores abdominais, náuseas ou vômitos, sem uma causa médica identificável.
• Palidez, palpitações, falta de ar, boca seca, tremores ou sudorese nas mãos e pés.
• Tensão muscular, levando a desconforto físico constante.
É importante notar que crianças, podem apresentar sinais como protestos, acessos de raiva, falta de concentração e apatia. Se esses sintomas forem frequentes e interferirem nas atividades diárias da criança, é aconselhável procurar a orientação de um profissional de saúde mental especializado em crianças e adolescentes.
Pesquisas como as de Costello, Egger e Angold (2005) indicam que a prevalência dos transtornos ansiosos aumenta com a idade, especialmente entre os 6 e 12 anos, à medida que a criança desenvolve maior consciência dos riscos e preocupações futuras.
Como os pais podem ajudar crianças ansiosas?
- Incentivar o bom humor e a descontração: Promover momentos de alegria e leveza na rotina familiar pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade nas crianças. Atividades divertidas e risadas contribuem para um ambiente mais relaxado e acolhedor.
- Ensine técnicas de respiração e relaxamento: Introduzir práticas de mindfulness, como exercícios de respiração profunda, pode auxiliar a criança a gerenciar a ansiedade. Essas técnicas promovem o autocontrole e a calma em momentos de tensão.
- Mantenha uma alimentação balanceada: Uma dieta rica em vegetais, grãos e proteínas magras pode influenciar positivamente o humor e a disposição da criança. Evitar alimentos processados e ricos em açúcar é recomendado para minimizar possíveis impactos negativos no comportamento.
- Estabeleça uma rotina de sono adequada: Garantir que a criança tenha um sono de qualidade é essencial para o bem-estar emocional. Um ambiente tranquilo e horários regulares para dormir contribuem para a redução da ansiedade.
- Pratique atividades físicas regularmente: Incentivar a prática de exercícios físicos, como brincar ao ar livre, nadar ou jogar bola, ajuda na liberação de endorfinas, hormônios que promovem a sensação de bem-estar e aliviam a ansiedade.
- Comunique-se abertamente sobre emoções: Criar um ambiente onde a criança se sinta segura para expressar seus sentimentos é fundamental. Conversar sobre emoções e experiências ajuda na construção de estratégias para enfrentar inseguranças e ansiedades.
- Incentivar o Brincar Livre: O brincar é essencial para a criança expressar e elaborar suas angústias. Através do brincar, a criança pode simbolizar conflitos internos e encontrar formas de lidar com eles. Winnicott destaca que o brincar permite à criança explorar sua criatividade e desenvolver a capacidade de tolerar a separação da mãe.
- Estabelecer uma Relação de Confiança: Uma relação de confiança entre pais e filhos é fundamental para que a criança se sinta segura ao expressar suas ansiedades. Segundo a psicanálise, a qualidade do vínculo afetivo influencia diretamente na capacidade da criança de lidar com suas emoções.
- Compreender a Subjetividade Parental: Refletir sobre as próprias ansiedades e expectativas dos pais pode auxiliar na compreensão das reações da criança. A parentalidade, influenciada pelo narcisismo dos próprios pais, pode ser fonte de tensão que afeta o desenvolvimento psíquico da criança.
Embora existam diversas estratégias que os pais possam adotar para ajudar seus filhos a lidar com a ansiedade, é fundamental reconhecer quando a intervenção de um profissional da saúde mental se torna necessária. Quando os sintomas ansiosos persistem e começam a interferir no cotidiano da criança — afetando seu desempenho escolar, suas relações sociais e seu bem-estar emocional — buscar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra especializado em infância e adolescência é essencial.
A terapia infantil pode proporcionar um espaço seguro para que a criança expresse suas emoções, compreenda suas angústias e desenvolva mecanismos saudáveis para lidar com suas inseguranças.
Além disso, o acompanhamento profissional pode orientar os pais, ajudando-os a construir um ambiente emocionalmente acolhedor e a agir de forma mais assertiva diante dos desafios da ansiedade infantil.
A saúde mental na infância é um pilar fundamental para o desenvolvimento de adultos emocionalmente equilibrados. Cuidar da ansiedade desde cedo não apenas melhora a qualidade de vida da criança, mas também previne complicações futuras, garantindo que ela cresça com mais confiança, autonomia e bem-estar.
Se você perceber que seu filho enfrenta dificuldades persistentes, não hesite em procurar um profissional capacitado. O suporte adequado pode fazer toda a diferença no futuro da criança.
